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Nome de um cão ou o direito natural — Emmanuel Lévinas

Atualizado: 22 de mar. de 2022

Tradução e apresentação de Renata Villon.


“Vocês serão meu povo santo. Não comam a carne de nenhum animal despedaçado por feras no campo; joguem-na aos cães” (Êxodo 22:31, NVI). O versículo bíblico atribui, e mais tarde será criticado por isso, importância demais ao que “entra na boca do homem” sem se importar com o que dela sai? A menos que a visão de uma carne despedaçada no campo lhe pareça forte demais para a boa digestão do homem honesto que — mesmo sendo carnívoro — ainda crê estar sob o olhar de um deus. Carne despedaçada no campo, restos das lutas sangrentas das feras que se entredevoram, da espécie forte à espécie fraca, e que a inteligência sublimará em jogos de caça! Espetáculo que sugere os horrores da guerra, os despedaçamentos no interior das espécies, de onde os homens extrairão as emoções artísticas do Kriegspiel. Ideias que tiram o apetite! Na verdade, elas podem aparecer também em nossa mesa de família, quando enfiamos o garfo na carne assada. Aí podemos ter motivo para retornar ao regime vegetariano. De acordo com o Gênesis, foi esse o regime de Adão, o pai de todos nós! Aí podemos ter ao menos um motivo para querer limitar, por meio de determinadas interdições, a carnificina reivindicada, todos os dias, por nossa boca de “homens”! Mas chega de teologia! É pelo cão do fim do versículo que me interesso particularmente. Penso em Bobby.

Quem é então esse cão do final do versículo? Aquele que perturba os jogos de sociedade (ou a própria Sociedade) e que recebemos, desde então, como um cão numa loja de porcelanas¹? Aquele que acusamos de raiva quando nos preparamos para afogá-lo? Aquele para quem sobra o trabalho mais sujo — o ofício de cão — e que, em todos os tempos — denominados “tempos de cão” — deixamos de fora dos recintos protegidos, mesmo nas horas mais execráveis em que não se ousa colocar um cão do lado de fora. Mas estes, apesar da miséria, vão repelir a afronta de uma caça repugnante.

Será que se trataria então da fera que perdeu totalmente o orgulho de sua natureza selvagem, do cão pau-mandado, de um ignóbil cão servil? Ou, entre cão e lobo² (e que luz no mundo já não é esse crepúsculo?), seria aquele que, lobo com fidelidade de cão, cobiça sangue — coagulado ou fresco, o que importa?

Mas chega de alegorias! Já lemos fábulas demais e sempre considerando no sentido figurado o nome de um cão! Ora, nos termos de uma venerável hermenêutica, mais antiga que La Fontaine, oralmente transmitida de alta antiguidade — a hermenêutica dos doutores talmúdicos —, o texto dessa Bíblia repleta de parábolas recusaria aqui a metáfora: no versículo 31 do capítulo 22 do Êxodo, o cão seria um cão. Literalmente um cão! Aquém dos escrúpulos, em virtude de sua natureza feliz e de seus retos pensamentos de cão, fará boa refeição com toda a carnificina encontrada no campo. Esse banquete é direito dele.

A alta hermenêutica — tão ligada, aqui, ao palavra por palavra —, no entanto, permite explicar o paradoxo de uma pura natureza se abrindo para direitos.

Ei-la aqui, fazendo ressurgir cães esquecidos na proposição subordinada de um outro versículo do Êxodo. No sétimo versículo do capítulo 11, estranhos cães são atingidos por estupor e por luz no meio da noite. Eles não latirão! Ao seu redor, no entanto, um mundo se encerra. Eis a noite fatal da “morte dos primogênitos” do Egito. Israel sairá do cativeiro. Os escravizados que serviam os escravos do Estado seguirão, desde então, a Voz mais alta, a via mais livre. Figura da humanidade! A liberdade do homem é a de um liberto que se lembra da sua servidão e se solidariza com todos os subjugados. Uma turba de escravizados celebrará esse alto mistério do homem e “nenhum cão latirá”. Na hora suprema de sua instauração — e sem ética e sem logos —, o cão atestará a dignidade da pessoa. O amigo do homem — é esse. Uma transcendência no animal! E o versículo tão evidente do qual partimos se ilumina com um novo sentido. Ele nos lembra de uma dívida ainda aberta.

Mas será que a sutil exegese que citamos não se perde na retórica? Talvez.

Éramos setenta em um commando florestal para prisioneiros de guerra israelitas, na Alemanha nazista. O campo levava — singular coincidência — o número 1492, ano da expulsão dos judeus da Espanha sob o reinado de Ferdinando V, o Católico. O uniforme francês ainda nos protegia da violência hitleriana. Mas os outros homens, ditos livres, que cruzavam nosso caminho ou que nos davam trabalho ou ordens ou até mesmo um sorriso — e as crianças e as mulheres que passavam e que ocasionalmente erguiam os olhos em nossa direção — nos despojavam de nossa pele humana. Não éramos mais que uma quase-humanidade, um bando de macacos. Força e miséria de perseguidos, um pobre murmúrio interior nos relembrava nossa essência racional. Mas não estávamos mais no mundo. Nosso vai-e-vem, nossas dores e nossos risos, nossas doenças e nossas distrações, o trabalho de nossas mãos e a angústia de nossos olhos, as cartas que nos remetiam da França e as que aceitavam para nossas famílias —, tudo isso se passava entre parênteses. Seres aprisionados em sua própria espécie; apesar de todo o seu vocabulário, seres sem linguagem. O racismo não é um conceito biológico; o antissemitismo é o arquétipo de todo encarceramento. A própria opressão social apenas imita esse modelo. Ela enclausura numa classe, priva de expressão e condena aos “significantes sem significados” e, desde então, às violências e aos combates. Como entregar uma mensagem de nossa humanidade que, por detrás das barreiras das aspas, se estende de outra forma que não como falar simiesco?

E eis que, perto da metade de um longo cativeiro — por algumas curtas semanas e antes que as sentinelas o tivesse caçado —, um cão errante entra em nossas vidas. Ele veio um dia se juntar à turba, enquanto, bem vigiados, retornávamos do trabalho. Ele sobrevivia em algum canto selvagem nos arredores do campo. Mas nós o chamávamos de Bobby, um nome exótico, como convém a um cão querido. Ele aparecia nas reuniões matinais e nos esperava na volta, saltitante e latindo alegremente. Para ele — isso era incontestável —, éramos homens.

O cão que reconheceu Ulisses disfarçado quando retornou da Odisseia seria parente do nosso? Mas não, não! Lá se tratava de Ítaca e da pátria. Aqui não era lugar nenhum. Último kantiano da Alemanha nazista, não possuindo o cérebro necessário para universalizar as máximas de suas pulsões, ele descendia dos cães do Egito. E seu latido de amigo — fé de animal — nasceu no silêncio de seus ancestrais das margens do Nilo.


  1. No original, comme un chien dans un jeu de quilles, a expressão se referiria a um cachorro que atrapalha um jogo de boliche. Aparentemente datada do século XVIII, quando tal jogo passou a ser comum, se popularizou como algo que se diz a respeito do que chega de forma inoportuna, de forma errada ou na hora errada, metaforicamente derrubando as peças do jogo e estragando-o. Possui assim uma certa similaridade com a expressão "como um elefante numa loja de porcelanas", existente tanto em português quanto em francês. Como o texto tem como tema principal o cão, optou-se por deixar o cão do original e alterar apenas o que seria "jogo de boliche" para se tornar mais identificável com a expressão já conhecida no português. (N. do T.).

  2. Entre chien et loup, expressão que se refere aos momentos do dia, entre manhã e noite, em que a visão é dificultada pela escuridão e se torna difícil diferenciar um cão de um lobo. (N. do T.).


LÉVINAS, Emmanuel. "Nom d'un chien ou le droit naturel". In: Lévinas, Difficile Liberté, 3e éd. revue et corrigée, Livre de poche, 1976, p. 213-216.


Émmanuel Levinas foi um filósofo naturalizado francês com ascendência judaica e lituana. Lutou com o exército francês durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele e os demais soldados de seu commando foram feitos de prisioneiros de guerra. Lévinas se manteve separado de seus colegas ao ser colocado em um campo de prisão específico para judeus, onde seu status de prisioneiro de guerra ainda o protegia dos horrores ainda mais acentuados dos infames campos de trabalho.

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