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A rosa agora é a flor de nada — Jean-Marie Gleize

Tradução de Renata Villon


Um contra-canto, isso não se improvisa.


A ROSA AGORA É A FLOR DE NADA. Enquanto isso tem um corpo que queima. O tempo passa e o corpo queima e a flor continua seu barulho de nada. Meus dentes nascem. Meus dedos vêm, um a um. Eu vou me tornar com essa forma irregular respirando. Eu respirando com o corpo que queima e a flor de nada.


E nós, então, o que nos atormenta? Como localizar a corrente principal?


Existe água na prosa. De agora em diante a rosa é a flor de nada. A fala sufocada sob as rosas, sob as flores, as figuras, um estilo, caligrafia, eutropia, eutonia, eufonia, euforia, nas roseiras do estilo, recoberta por toda água das rosas, de rosa, a prosa invadida pela pele da água de rosa, esse leite. A prosa esmagada sob as rosas funerárias. A fala caída sob a fala flORAL. A prosa ajeitada regada para os cemitérios.


É um jogo lógico pelo sufocamento das coisas, florações, floreios, florilégios, antologias, irrigar as coisas, pôr em buquê, grinaldas, coroas da prosa funerária.


Tem muita pose na prosa. A rosa agora é a flor de nada significa a prosa está ao alcance de boca e de membros. Eu me torno, meus dedos pressionam, e os braços, as mãos, as coxas. Eu vou me tornar com essa forma irregular respirando e andando, correndo. Basta ir rumo a um pouco de prosa deflorada, desfeita, arrancada. Rumo a um pouco de terra fria e rasa.


Rumo a “um modelo de poesia esmagada achatada em prosa ou prosa achatada”.


Rumo a um pouco de prosa fria e rasa. Rumo a um pouco de prosa em prosa, esmagada seca arrasada achatada. Arrancada, deflorada, enxuta, seca, fria — e rasa.


In: GLEIZE, Jean-Marie. Les chiens noirs de la prose. Paris: Fiction & Cie, 1999.


JEAN-MARIE GLEIZE nasceu em Paris em 1º de abril de 1946. É professor de literatura na Universidade de Aix-en-Provence e na École Normale Supérieure de Lyon, onde também dirigiu o Centro de Estudos Poéticos (1999-2009). Além de suas várias publicações, é responsável pela gestão dos Nioques, núcleo no qual se retomam e exploram temas das vanguardas históricas de 1960-1970. Sua obra poética reflete seus estudos acerca da tradição poética e literária, principalmente a francesa, resultando então numa escrita realista e prosaica onde se misturam diversos gêneros.

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